Sapatos e esperanças

Assumindo a missão de trabalhar com moradores de rua, cheguei meio perdida no meio daquele monte de carinhas curiosas. Como essa população tem como uma de suas características o imediatismo, pedem muito, reclamam muito, por vezes se alteram por pouca coisa. Eu no meio daquilo tudo, correndo entre a compaixão e a impaciência, comecei a dizer não para muitos, e muitos passaram a me odiar. Experimentei gratidão e resistência, tudo junto.


No meio deles, LC me olhava meio desconfiado. Ainda estava decidindo se ia me odiar. Acabou criando certa intimidade e começou a brincar, fazer piadas. Um dia perguntei se ele estava no meio daqueles que falavam mal de mim e ele respondeu rindo: ‘mas é claro!’...

As semanas foram se passando, e eu tentando equilibrar a equação. Fui aprendendo seus nomes, acenando, perguntando sobre o seu problema e dizendo mais sim do que não.

Um dia cheguei e as abordagens e pedidos choveram. LC disse que queria falar comigo, e eu logo pensei que era mais um a pedir algo. Pedi que esperasse, enquanto corria de um lado para o outro tentando atender a todos. Ele se sentou e me esperou pacientemente por uns 20 minutos. Quando finalmente consegui atendê-lo, ele abriu um saco e tirou de dentro vários pares de calçados femininos e tênis, todos em ótimo estado (muitas vezes recebemos peças em estado lastimável) e me disse: ‘trouxe pra você!’. Ele havia ganho na rua e, ao invés de vender, trouxe para que eu colocasse na rouparia. Fiquei surpresa, elogiei muito as peças e disse: ‘eu queria poder te abraçar’...


O trabalho voluntário, com uma população tão vulnerável, mexe com nossas estruturas todo o tempo. Os desafios são grandes e diários, ganhos e perdas, muitas vezes desânimo e exaustão.


Sem saber, LC me deu um sopro de esperança. Estou convencida de que ele foi instrumento de Deus para me dizer: ‘Calma, vai dar certo’!


Marta Helena Meireles de Resende, Diretora Vice-Presidente




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